Bombeiros: “A sensação de os ver regressar a casa não tem explicação”

Pais, mães, filhos, maridos, mulheres de bombeiros, revelam o que sentem ao vê-los partir para combater os fogos que deflagram em Portugal, sem nunca poder ter a certeza de que irão regressar pela porta de casa.

Numa altura em que as chamas já deflagravam em Monchique, Teresa temia pela hora que o marido fosse chamado. A sirene tocou na segunda-feira, José Alberto Ribeiros, de 41 anos, voluntários em Alcoutim desde 1993, soube que tinha que partir para mais uma missão, deixando para trás a sua família, Teresa Horta, sua mulher, juntamente da sua filha de 16 e uma criança que tem data marcada para chegar ao mundo em Setembro. É um medo e uma ansiedade muito grande que afeta qualquer familiar e amigo que é deixado para trás.

Quando Teresa, 40 anos, auxiliar de limpeza, e Alberto se apaixonaram já ele estava ao serviço dos Bombeiros Voluntários de Alcoutim. Teresa casou-se por isso de contrato passado com todas as condições e consequências da profissão de Alberto.

A conversa com Teresa é feita de suspiros e faz-nos adivinhar como é antiga a aflição de ser casada com alguém que arrisca a vida todos os dias. Logo ela, que não é nada dada a aventuras, conta, tem um marido que corre tantos riscos. “Estamos sempre à espera do pior. Não sofre só quem vai. Sofre também, e muito, quem fica”, desabafa. Alberto não chegou aos bombeiros por qualquer influência familiar e a sua mulher garante que é tudo uma questão de “paixão”.

Olga confessa ter tido “um mau pressentimento”, que a fez dizer à filha, assim que saiu de casa para ajudar no incêndio que deflagrava sobre Pedrógão Grande, “para não ir”.

Como pais, admitem que o medo ganha outras proporções quando os filhos entram na equação, principalmente quando um deles ainda nem nasceu. Já por isso, Alberto faz questão, sempre que sai em serviço, de ir dando notícias, consciente de que, em casa, há ansiedade para saber se tudo está bem. Teresa confirma que é assim que acontece, “ainda que às vezes não seja possível”. De uma maneira ou de outra, não há como evitar, está “sempre com o coração nas mãos”.

Pousam-se os olhos incessantemente sobre um ecrã de televisão, deixam-se os ouvidos atentos a tudo o que se passa do outro lado e espera-se que, a qualquer altura, quem esperamos entre pela porta. “A sensação de o ver entrar em casa não tem explicação”, confessa.

Por respeito à profissão e à paixão de José Alberto, Teresa nunca lhe pediu para abandonar o ofício, e se um filho um dia lhe pedisse para ser bombeiro, embora não o impedisse, Teresa faria saber que este não é o seu desejo.

Pressentimento de mãe
Olga Rodrigues, 43 anos, também ela auxiliar de limpeza, gostaria de ter mais poder de decisão no que toca ao futuro dos filhos, mas este escapou-lhe entre os dedos das mãos. Naquele verão de 2017, quatro bombeiros ficaram gravemente feridos e um morreu depois de a viatura em que seguiam ser abalroada por um automóvel ligeiro na Estrada Nacional 236-1 – onde viriam a perder a vida 47 pessoas.

Filipa Rodrigues, de 25 anos, filha de Olga, ia nesse carro, naquele dia. Além de ter perdido um colega, a bombeira voluntária de Castanheira de Pera sofreu queimaduras em 21% do corpo, estando impossibilitada de voltar a exercer. “É uma menina com uma história muito triste”, aponta Olga, num penoso desabafo de mãe.

Olga confessa ter tido “um mau pressentimento”, que a fez dizer à filha, assim que saiu de casa para ajudar no incêndio que deflagrava sobre Pedrógão Grande, “para não ir”. Ainda assim, Filipa, bombeira desde os 17 anos, não hesitou e foi. Atrás dela, seguiu-se o pai, também bombeiro voluntário.

“Eles saíram de casa às 16/16.30, mas depois não conseguia falar com nenhum deles, porque não havia rede”, recorda. Para Olga, o dia 17 de junho é aquele em que pensou “que o mundo tinha acabado”. Naquele dia não estava na vila. Tentava a toda a força salvar a casa dos seus pais das chamas que já andavam perto.

Quando conseguiu “descer” dali, dirigiu-se ao quartel dos bombeiros para saber notícias dos dois familiares. Foi quando lhe disseram que a filha, já a caminho de Coimbra, tinha ficado queimada durante o combate ao incêndio. A fúria tomou conta de Olga e durante dois dias não conseguiu ir ver a filha. As estradas estavam cortadas e era impossível deslocar-se até ao hospital de Coimbra.

Mais de um ano depois, e contra o desejo da própria mãe, Filipa já pediu uma nova farda. “Ela ainda vai dormir para os bombeiros”, conta Olga. Apesar da sua condição física, a jovem bombeira continua a prestar serviço ao quartel, auxiliando no transporte de doentes ou nas emergências pré-hospitalares. Os médicos que acompanham Filipa recomendam que nunca mais volte a combater incêndios – os riscos são grandes a nível físico e psicológico -, mas Olga sabe que, caso veja os colegas com necessidade de ajuda, a filha não pensará duas vezes.

Fonte:
Diário de Noticias

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