“Carta aberta ao Manel.

Caro Manel. Ontem, enquanto vagueava pelas ruas, salvou um bebé recém-nascido abandonado num caixote do lixo, em Lisboa. Talvez esta carta não interesse a muitos mas eu tenho de a escrever na mesma.

O Manel vive nas ruas há anos e embora esteja talvez habituado a ser destratado e esquecido eu quero lhe pedir desculpa.

Em Portugal, desperdiçamos tanto do nosso tempo a procurar vilões, que acabamos por nos esquecer que ainda existem heróis neste país. Para mim, o Manel é um herói.

Tantas vezes denunciamos políticos corruptos, reclamamos daqueles que abusam da lei e, em muitos casos, insultamos e odiámos quem de nós discorda. Tanta vezes cometemos o erro de glorificar quem não merece ser glorificado e rebaixar quem não tem culpa de estar em baixo. Ouvimos quem não deveria ser ouvido, toleramos quem não deveria ser tolerado e condecoramos aqueles que, no fundo, não merecem nada. Muitos vêm políticos, comentadores, treinadores de futebol ou presidentes de clubes como heróis, mas depois ignoram aqueles que realmente são. Acabamos todos por nos perder neste jogo estupido e supérfluo de ódios e amores.

Para mim os verdadeiros heróis não se encontram atrás de púlpitos ou de câmaras de televisão. Não são aqueles que nos dividem mas aqueles que nos unem. Para mim o bombeiro sem nome que arrisca a vida nas chamas é um herói e merece ser tratado como tal. Para mim aquele polícia que morre em serviço é um herói, embora seja esquecido. Para mim o médico ou enfermeiro que dá horas da vida à profissão, embora seja destratado, é um herói. Para mim as dezenas de milhares de jovens que todos os anos abandonam o país por falta de condições são heróis. Para mim o sem-abrigo que resgate um bebé do lixo é um herói e merece muito mais.

Para mim há muitos heróis que se escondem na sombra de um vicio horrível neste país: o vício de darmos valor a quem não o tem, enquanto descartamos aqueles que verdadeiramente nos deveriam orgulhar de afirmar: “sou português”.

Por isso, peço desculpa Manel.

Tenho dito.”

Autor da carta: Gaspar Macedo