João, 45 anos, bombeiro desde os seus 19 anos.

João era bombeiro desde os 19 anos no corpo de bombeiros local, era casado, e tinha 3 filhos, André de 12 anos, Patrícia de 6 e Gustavo de 4 anos de idade.
João passava a maior parte do tempo no seu corpo de bombeiros onde trabalhava desde os 25 anos.

Cresceu como homem e como bombeiro dentro do seu corpo de bombeiros, e para ele era a sua segunda casa, senão a primeira, João adorava o que fazia, quando saía em socorro de alguém dava sempre o seu melhor, fosse a situação grave ou não, afinal um bom bombeiro é mesmo assim, dá sempre o seu melhor independentemente da situação a socorrer.

Ao longo dos anos foi vivendo coisas que ninguém vive em qualquer outra profissão, socorreu idosos, apagou incêndios, salvou animais em cima de árvores, acorreu com prontidão ao acidente que fez 3 mortos sendo que um deles era uma criança com apenas 4 anos, e mesmo depois disso continuou em frente sempre com a mesma alegria e vontade do primeiro dia em que orgulhosamente vestiu o seu primeiro fato-macaco.

Este acidente marcou-o ao ponto de pensar em deixar a vida que tinha como bombeiro, felizmente conseguiu ultrapassar a fase difícil e seguiu em frente.

João era um homem pacato, amigo do seu amigo e gostava de ajudar toda a gente dentro do possível, com o passar dos anos o jovem João tinha-se transformado em homem, e passou a ver a vida de outra forma.
Com o nascimento do primeiro filho, sentiu a maior alegria da sua vida, tinha alguém que era sangue do seu sangue, tinha alguém que o fazia sentir o que os seus pais sentiram por si, tinha alguém por quem daria a vida se preciso fosse.

Os anos foram passando, e João, continuou a servir o próximo com afinco, dedicação, prontidão, em suma, João vivia para a família, ou melhor, para as famílias, porque os bombeiros eram para si uma segunda família.

Foram muitas as situações que socorreu, mas algumas deixavam marcas profundas, marcas para toda a vida, marcas que nunca se esquecem e nos perseguem por toda a vida, marcas que ficam gravadas como se de uma tatuagem se tratasse.

Aos 45 anos, João, sente que algo não está bem, sente que começa a perder fulgor, começa a sentir-se cansado e sem forças, já não reflecte o mesmo sorriso que o acompanhara ao longo dos últimos anos fazendo o que mais gostava, sente que já não era a mesma pessoa, mas o que mais o desinquietava é que não conseguia entender o porquê desta mudança, o porquê deste sentimento, um sentimento estranho que por mais que tentasse não conseguia entender.

Em casa, a família era o seu refúgio, mas mesmo assim não conseguia sentir a paz que tanto precisava, não era fácil, com 3 filhos para cuidar e a querer a sua atenção para quase tudo, João via-se envolto num lufa-lufa constante em que todos precisavam da sua atenção. Amava a sua mulher como se não houvesse amanhã, e mesmo nos dias em que discutiam, continuava amá-la como se não existisse mais ninguém no mundo, e ainda hoje a ama como desde o primeiro dia em que percebeu o que era realmente o amor por uma mulher.

João viveu a sua vida com paixão, agarrou todas as oportunidades que lhe surgiram para crescer como bombeiro, como pai, como esposo e como homem, nem sempre se sentiu realizado, mas nunca baixou os braços, nem mesmo nas 3 vezes que se viu cercado pelo fogo em que se mentalizou que tinha chegado a sua hora, mas mesmo assim não se rendeu, e conseguiu salvar-se a si e aos seus companheiros de luta, de uma morte quase certa.

Mas agora tudo era diferente, agora sentia em si o que nunca sentira antes, um sentimento de tristeza, um sentimento de vazio dentro de si, um sentimento que doía mais do que devia.

Três e meia da manhã e João sem pregar olho, sentou-se na cama e olhou para a mulher que amava ao seu lado, dormia um sono profundo, um sono de paz, como amava a sua mulher, Ana era uma mulher lindíssima, com um corpo deslumbrante e João deu por si várias vezes a perguntar-se o que teria ela visto em si, para o escolher para viver ao seu lado.

A vida dos dois não era fácil, nada fácil, trabalhavam para viver e não se podiam esticar em grandes mordomias pois a vida não o permitia, mas de uma coisa tinha a certeza, aos filhos não faltava nada, alimentação, saúde, educação, uma casa digna para viver, mas mais importante de tudo, não lhes faltava carinho, afecto, atenção e amor.

Ana e João eram um casal feliz, mas faltava-lhes tempo, faltava-lhes tempo para os dois, faltava-lhes tempo para viverem o seu amor, faltava-lhes tempo para se divertirem, faltava-lhes tempo para namorarem, afinal, não são só os namorados que namoram, pois se num casamento um casal não o fizer, quase de certeza que a relação vai sair prejudicada.

Tudo isto trabalhava no subconsciente de João naquela noite de insónia, e dava por si a pensar se estaria a fazer alguma coisa mal, se estaria a falhar em algum aspecto da sua vida, levantou-se, e foi espreitar os filhos, Gustavo, dormia com uma perna por cima de André, e Patrícia dormia um sono de princesa que mais parecia um anjo, nem dava para acreditar que horas antes aquela casa parecia um manicómio com os três a fazer birra por tudo e por nada uns com os outros.

Ana por vezes ficava esgotada com tanta correria, e não era para menos.

João chegou a dizer numa conversa que teve com Ana, que esta nem precisava de se preocupar com o facto de voltar a engravidar, pois tinham em casa três grandes contraceptivos.

A noite avançava, e o sono teimava em não chegar, apesar de cansado não conseguia dormir e dava por si em pensamentos estranhos, pensamentos que o levavam a pensar se tudo isto que vivia valeria a pena, pensamentos que involuntariamente o levavam para onde não queria ir, o abismo.

Da noite se fez dia, e com ele a hora de João voltar ao trabalho, despediu-se de Ana com um beijo ternurento na cara enquanto esta ainda dormia, fez o mesmo com os três filhos, preparou-se para sair e antes de o fazer colocou uma folha branca na mesa-de-cabeceira de Ana em que dizia:
“Isto não é um adeus, mas sim um até breve”

Saiu de casa com as lágrimas a caírem pela face, involuntariamente os seus olhos começaram a ficar carregados. Durante a noite em que esteve acordado, tinha tomado uma decisão, a decisão mais difícil de toda a sua vida, era chegada a hora de partir.

Rapidamente chegou ao seu corpo de bombeiros, dirigiu-se ao seu cacifo, e observou todo o fardamento que ali se encontrava, pegou no casaco nomex e começou a recordar tudo o que já tinha feito com ele, vários incêndios urbanos, alguns desencarceramentos, e serviu até para o proteger do frio num incêndio florestal fora de época.

Colocou o casaco no seu lugar e fechou o cacifo, não queria recordar o que tinha feito com ele ao longo dos últimos anos, não queria distrair-se do que tinha em mente.

João estava ausente, distante, no meio dos seus colegas de trabalho ia dizendo que sim e acenando com a cabeça, mas na realidade não ouvia nada do que diziam, o seu pensamento estava longe, muito longe. Tinha decidido nessa noite que era chegada a hora de partir, não conseguia aguentar muito mais tudo o que vivia, estava cansado, demasiado cansado, da vida, de tudo.

O dia chegava ao fim e era chegada a hora de voltar a casa, foi neste momento que João tomou um novo destino que não o de casa, João tinha em mente partir, mas partir de vez.

Parou o carro, pegou no telefone e tentou ligar a Ana, mas não o fez, não teve coragem.
Deu uma vista de olhos rápida nas fotos dos filhos que tinha no telefone, como eram lindos, tinham saído à mãe, voltou a marcar o número de Ana, mas mais uma vez não teve coragem de lhe ligar.

Saiu do carro deixando as chaves na ignição, aproximou-se um pouco mas deu um passo atrás, alguém lhe dizia numa voz suave para não continuar, parou, e tentou escutar o que lhe tentavam dizer.
“Não o faças”, ouvia João alguém com uma voz suave a dizer, olhou à sua volta e não viu ninguém, deu mais um passo em frente e uma vez mais alguém lhe diz:
“Não o faças”

João estava perdido, confuso, completamente à deriva, completamente sozinho, mas alguém tentava dizer-lhe para não fazer o que tinha em mente.

Deu novamente um passo atrás, olhou para o telefone e recordou novamente uma foto dos seus filhos mas esta com Ana também no meio deles, estava baralhado, não sabia muito bem o que pensar, e no meio de todos estes pensamentos, volta a ouvir uma voz, uma voz que lhe pareceu familiar em que dizia:
“Não o faças, não me conseguiste salvar a mim mas já salvaste muitos outros, e muitos mais precisam de ti, inclusive os teus filhos”.
João parou no tempo, tudo o que se passava à sua volta deixava de fazer sentido, não conseguia perceber o porquê de tudo aquilo, não conseguia perceber quem estava a falar consigo, não conseguia perceber porque estava ali.

Deu dois passos em frente, parou, e olhou para o horizonte, o mundo, este mundo de que fazia parte, estava ali à sua frente, a chamar por si, a chamar pela sua coragem, a dizer-lhe “tu és daqui”.
Uma vez mais alguém lhe diz:
“Não o faças, o mundo precisa de ti, não me conseguiste salvar, mas salvaste muitos outros”.

João percebera agora o que se estava a passar, aquela criança que morreu no acidente em que escreve no início, pairava no subconsciente de João, nunca se conseguira perdoar por não ter feito mais, por não ter tentado mais, sabendo perfeitamente que tudo tinha sido feito, tinha feito o possível e o impossível, mas infelizmente nada poderia ser feito.

Aquela pequena criança de quatro anos, estava ali naquele momento a segurar João à vida, a segurar João a este mundo, um mundo cruel, em que podemos fazer a diferença.

João chorava agora como uma criança, chorava de alegria e de tristeza, de alegria, porque alguém o segurou neste mundo para a vida, e de tristeza pelo que tinha pensado fazer.

A vida não é nem nunca será um mar de rosas, cabe-nos a nós no nosso dia-a-dia, durante a nossa vida, fazer com que ela nos sorria.

De um momento para o outro a sirene do seu corpo de bombeiros começou a tocar, o toque não enganava, incêndio urbano, João, salta para dentro do carro e começa a dirigir-se para o quartel, pelo caminho atende uma chamada de Ana que devido ao atraso lhe ligou para saber se estava tudo bem, ao qual lhe respondeu:
“Vou para um incêndio numa casa, ouve o que te vou dizer, Amo-te muito, beijo”.
João chegou ao quartel e rapidamente se equipou, pegou no nomex que tinha visto horas antes, colocou o capacete, e ainda conseguiu sair na primeira viatura.

Pelo caminho lembrava-se dos minutos que tinha vivido há pouco tempo atrás, lembrava-se especialmente das palavras que ouvira:
“Não o faças, o mundo precisa de ti, não me conseguiste salvar, mas salvaste muitos outros”.
Pegou rapidamente no telefone e fez o que não tinha feito minutos atrás e ligou a Ana, do outro lado, Ana num tom admirado pergunta: “está tudo bem?”
Ao qual João responde:

“Sim, quero que ouças com atenção, Isto Não é um Adeus, Mas Sim Um Até Breve”…