Se pelo menos soubessem o que é ser Bombeiro…

Para ostentar esta farda, é preciso ter muito mais do que só sonhos, é preciso coragem para ir onde ninguém quer ir, para colocarem risco a vida por pessoas que nunca viu.

É preciso frieza para manchar a farda com sangue, das pessoas que ontem criticavam as nossas opções e zelar pela sua vida como se fosse a mais importante de todas.

É preciso saber que a mesma mão que se estende a pedir socorro, muito dificilmente se voltará a estender em sinal de agradecimento.

Para ser bombeiro o corpo precisa de saber que não há diferença entre a madrugada fria, ou o verão quente, e que entre a água e o fogo… todos se igualam ao som das sirenes.

Esses heróis chamados de bombeiros possuem um poder fundamental, que todos nós temos, mas só eles sabem usar, esses heróis não são como os dos filmes, eles possuem vidas mortais como qualquer um, no entanto arriscam a vida para salvar a de muitos.

Poderia simplesmente dizer que ser bombeiro é, possuir um treino adequado para combater incêndios, resgatar pessoas em situações de perigo ou socorrê-las em situação de doença, e ainda para salvar bens materiais. Mas estaria a ser redutor, era como se narrasse apenas metade de um filme de cinema.

Ser bombeiro é ficar ao dispor de conhecidos e desconhecidos que possam precisar de ajuda, em vez de ir a uma festa com os amigos, em vez de dormir em casa com a família, em vez de ter uma noite de repouso para ir trabalhar no dia seguinte. É escolher ir para o frio, vento e chuva, em vez de ficar à lareira numa noite de inverno, é escolher correr riscos e enfrentar o perigo e o medo, em vez de ficarmos no conforto e segurança do nosso lar.

De facto não é fácil ser bombeiro. Além de conhecimento que é preciso adquirir para que sejamos profissionais na nossa missão, é necessário sacrifício, dedicação e muita vontade de ajudar. Porque ser bombeiro, é também acalmar com palavras, carinho e sorrisos, é transmitir segurança e tranquilidade, é salvar desconhecidos com o mesmo carinho com que se abraça um amigo, é contrariar o desespero dos outros contendo as próprias lágrimas.

Seria injusto dizer que trabalhamos à troca de nada. Pois qualquer um de nós bombeiros sabemos apreciar as deleitosas recompensas: a felicidade de uma mãe que “deu à luz”, o entusiasmo com que um idoso nos conta a sua história e lição de vida, uma palavra, uma lágrima ou um abraço de agradecimento.

Não somos super heróis porque não temos poderes mágicos, não somos anjos porque não temos asas, não somos inconscientes porque sabemos os riscos que corremos, somos homens e mulheres com muita força de vontade.

Ser bombeiro é mais do que realizar uma missão, é eternizar momentos com sentimentos.

Muitos são os que nos criticam, muitos são os que nos apontam o dedo, para esses eu deixo um pequeno texto daquilo que por nós passa:
Gostava que pudesses ver a tristeza de um homem, quando o trabalho da sua vida desaparece em chamas, ou uma família que regressa de viagem, e apenas encontra a sua casa e todos os seus bens destruídos.

Gostava que pudesses saber, o que é procurar por crianças num quarto incendiado com as chamas por cima da tua cabeça, as palmas das mãos e os joelhos a queimarem enquanto rastejas, o chão a ranger com o teu peso enquanto a cozinha arde mesmo por baixo de ti.

Gostava que pudesses compreender o horror de uma esposa, quando às 3 da manhã percebe que o marido não respira, dou inicio há reanimação na esperança de uma hipótese muito remota de trazê-lo de volta, sabendo intuitivamente que já é tarde demais. Querendo que a família soubesse que tudo foi feito.

Gostava que pudesses sentir o cheiro único de uma queimadura, o sabor da saliva com gosto a fuligem, sentir o calor intenso que passa através da protecção, o som dos estalos das chamas. A sensação de não conseguir ver absolutamente nada através do denso fumo, sensações que se tornam muito familiares para mim.

Gostava que pudesses compreender como nos sentimos ao ir para casa de manhã após passarmos a maior parte da noite suando com o calor do fogo de um incêndio.

Gostava que pudesses ler os meus pensamentos quando somos accionados para um incêndio numa habitação, será que é falso alarme, ou será um grande incêndio, que perigos esperam por nós, haverá alguém no seu interior ou será que já saíram todos?

Gostava que pudesses estar na sala de emergência, quando o medico decide anunciar a morte da linda menina de 5 anos que tínhamos estado a tentar salvar nos últimos 25 minutos, e que nunca irá ter o seu primeiro namorado, nem nunca mais irá dizer “gosto muito de ti mamã”.

Gostava que pudesses ler os meus pensamentos, enquanto ajudo a retirar uma senhora do seu veiculo todo retorcido, “e se fosse a minha mãe, a minha esposa ou o meu filho?”

Gostava que pudesses saber como é entrar em casa e olhar para a família, não tendo coragem para lhes dizer que quase não voltava para casa da ultima ocorrência.

Gostava que pudesses sentir os meus sentimentos quando as pessoas verbalmente, e às vezes fisicamente nos maltratam, ou subestimam o que fazemos, ou quando assumem a postura soberba e covarde “isto nunca acontecerá comigo”.

Gostava que pudesses perceber a instabilidade mental, emocional e física, de refeições e sonos perdidos, a falta de actividade social.

Gostava que pudesses compreender quando temos uma criança a puxar-nos o braço e a perguntar: “a minha mãe está bem?” sem sequer conseguir olhar nos seus olhos, pois não podemos deixar cair uma lágrima. E o que é pior, é não saberes o que responder…

Gostava que pudesses saber que existem mais mil e uma dificuldades que todos os dias nos aparecem pela frente, mas mesmo assim, continuamos prontos e preparados para socorrer quem precisa, de dia ou de noite, com sol ou com chuva, com calor ou com frio, diremos sempre “Presente” e nunca deixaremos ninguém para trás.

Gostava que pudesses saber que mesmo com todas estas dificuldades, continuamos a combater o flagelo dos incêndios florestais, chegando ao ponto de alguns de nós, perder a vida.

E mesmo assim, ainda existe quem nos critica, ou porque demoramos muito a chegar, ou porque devíamos ter enviado mais viaturas, ou então porque simplesmente, têm gosto em criticar-nos. Nunca se esqueçam que nós somos humanos como vocês, temos família como vocês, e temos sentimentos como vocês, e nada nos custa mais do que ver os bens de alguém perdidos no meio do fogo, ou ainda pior, ver alguém a perder a vida mesmo há nossa frente.

Por isso antes de nos criticarem, olhem bem à vossa volta e imaginem do que seria do mundo sem os bombeiros.

Especial agradecimento a João Oliveira – Corporação de Bombeiros Voluntários de Castelo Branco

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